Terça-feira, Dezembro 26, 2006

O FIM... E O COMEÇO



"Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente."

Vinícius de Moraes

Retrato no Caf� Santo Ant�nio - Florian�polis/SC - Brasil

Agradeço a todos os que me visitaram neste blog durante esse tempo de mais de dois anos.
Espero poder ter me mostrado através dessas fotos e dos poemas que escolhi.
Obrigado ao Gui pelo estímulo que me deu para criar esse local.
E, como no poema de Vinícius, minha jornada virtual ao meu interior termina aqui, mas a partir dela outras várias nascerão.

Quinta-feira, Novembro 30, 2006

ILUSÃO



"Horas breves de meu contentamento,
nunca me pareceu, quando vos tinha,
que vos visse mudadas tão asinha
em uns tão longos dias de tormento.

As altas torres, que fundei no vento,
o vento as levou logo, que as sustinha;
do mal, que me ficou, a culpa é minha,
pois sobre cousas vãs fiz fundamento.

Amor com falsas mostras aparece;
tudo possível faz, tudo assegura
e logo, no melhor, desaparece.

Eu o quis, pois o quis minha Ventura,
que, gemendo e chorando, conhecesse
quão fugitivo ele é, quão pouco dura."

Luís de Camões

Chaminés de uma olaria desativada - Tijucas/SC - Brasil

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

INTENSA CORREDEIRA




"Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

(...)"
Hilda Hilst

Panos cobrindo decoração de Natal em shopping - Florianópolis/SC - Brasil

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

O ESQUELETO



"Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo."

Ivan Junqueira

Panos cobrindo decoração de Natal em shopping - Florianópolis / SC - Brasil

Domingo, Novembro 05, 2006

SOMBRA SELVAGEM



"Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde."

Waly Salomão

Panos encobrindo decoração de Natal de shopping - Florian�polis / SC - Brasil

Domingo, Outubro 29, 2006

FLOR DO ASFALTO



"(...)
Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!


Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...


Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!"

Guilherme de Almeida

Sítio em São João Batista / SC - Brasil

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

AMAR E MAIS AMAR...




"Semente de amor
Sei que sou desde nascença
Mas sem ter vida e fulgor
Eis a minha sentença
Tentei pela primeira vez um sonho vibrar
Foi beijo que nasceu
E morreu sem se chegar a dar

Às vezes dou gargalhada
Ao lembrar do passado
Nunca pensei em amor, nunca amei nem fui amado
Se julgas que estou mentindo jurar sou capaz
Foi simples sonho que passou e nada mais."
Cartola


Oficina abandonada - Tijucas/SC - Brasil